População sem teto improvisa casas com sofás, camas, armários em ruas de Fortaleza

Se tivessem paredes e teto concretos, as estruturas montadas por pessoas em situação de rua em Fortaleza seriam como casas. Com papelão, placas de madeira e outros materiais reciclados, homens, mulheres e crianças erguem “cômodos” em vias públicas e canteiros centrais, buscando proteção contra a chuva, o sol e as múltiplas violências.

Os lares improvisados são cada dia mais comuns nas regiões centrais e periféricas da capital cearense, indicando possível aumento na quantidade de fortalezenses sem teto. A contabilização oficial em 2015 era de 1.718 pessoas, feita pela Prefeitura de Fortaleza e já desatualizada. Um novo Censo sobre a População em Situação de Rua da cidade “está em processo licitatório”, como informou a Secretaria dos Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SDHDS), em nota.

A realização do levantamento foi alvo de recomendação do Ministério Público do Ceará (MPCE), em agosto deste ano, que determinou um prazo de 30 dias para que a gestão municipal montasse o cronograma da pesquisa. As datas, contudo, não foram informadas ao G1. Para Eneas Romero, promotor de Justiça do MPCE e coordenador auxiliar do Centro de Apoio Operacional da Cidadania (Caocidadania), um censo específico é fundamental para elaboração de políticas.

“É uma população flutuante, mais difícil de abordar, tem um perfil múltiplo que precisa ser entendido. Qual o histórico daquela pessoa? Sem o censo, teremos sempre uma lacuna. Houve um aumento muito grande dessa população”, pontua, acrescentando que a pesquisa deveria ser feita também “em todas as cidades cearenses com mais de 100 mil habitantes”. A proposta, porém, não avançou nas esferas governamentais.

Entender essa população é importante para repensar o preconceito, acabar com a política higienista, que quer expulsá-las”, afirma o promotor de Justiça Eneas Romero.

‘Sem tomar café, sem almoçar e sem jantar’

Fora das estatísticas, as estratégias para uma sobrevivência segura resistem – processo que, para Jesus Maciel, já dura 15 dos 70 anos de idade. No “apartamento” sem porta, construído à base de material reciclado no Bairro Cidade dos Funcionários, em Fortaleza, cabem cama, fogão, roupas, espelho na “parede” e uma carcaça de geladeira na qual guarda a ração dos cachorros Toinha, Ceará e Anita, “pros ratos não roerem como fazem com as lonas” do teto.

São os animais de estimação que fazem vezes de alarme para acordar Jesus e impedir que estranhos roubem os poucos pertences guardados no barraco. Mesmo assim, o colchão, o botijão de gás e “um radinho” que recebeu no Natal passado se foram, quando se ausentou por dois minutos para ir pegar água em um condomínio próximo, “pra tomar banho e lavar roupa”.

Apesar de tudo, ele define o “puxadinho” como lar. “Muita gente, até cantor famoso, já me convidou pra sair da rua. Mas não quero, não”, assume, movido pela frustração de não ter conseguido uma unidade do programa habitacional Minha Casa Minha Vida, mesmo ficando “sem tomar café, sem almoçar e sem jantar dias inteiros, resolvendo burocracias”. Ficou de herança a impressão de que tudo pode dar errado – de que a rua é predestino. Continue lendo.

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