Operação policial na Vila Cruzeiro, no Rio, deixa 22 mortos

Vinte e duas pessoas foram mortas durante uma operação policial na Vila Cruzeiro, na Zona Norte do Rio. Uma delas foi baleada dentro de casa.

“Quatro horas da manhã, começou operação aqui na Vila Cruzeiro. Muito tiro, mas muito tiro mesmo. Os policiais do Bope entraram aqui com um blindado e vários carros. E a bala está comendo”, diz um morador em um vídeo.

“Fomos acordados, assim, com tiros, muitos, muitos tiros, rajadas. Entendeu? Eu com as crianças dentro de casa, nervosa, porque eu tinha que sair para trabalhar. Eu saio por essas horas, seis horas, não consegui ir trabalhar”, diz o áudio de uma moradora.

“Estou até agora sem dormir. Já são quase nove e meia. Desde três e meia mais ou menos que eu ouvi os primeiros tiros e fogos”, conta um morador em áudio.

Ainda de madrugada, 80 homens do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar e da Polícia Rodoviária Federal cercaram a Vila Cruzeiro, na Zona Norte do Rio.

Segundo a polícia, chefes da facção mais violenta do estado estavam reunidos na comunidade, preparados para invadir outra favela.

A Polícia Rodoviária Federal participou com 26 homens e 11 carros blindados. Integrantes da facção são acusados de roubo de carga e roubo de veículos em rodovias federais e vinham sendo monitorados.

Informações de inteligência da Polícia Federal também foram usadas na operação, que vinha sendo planejada há várias semanas. Segundo a polícia, a ação foi desencadeada às pressas depois de um ataque dos traficantes.

“A operação era uma operação de inteligência. Era um monitoramento para que a prisão fosse feita fora da comunidade. E isso não foi feito exatamente por um ataque por parte dos criminosos daquela facção a uma guarnição nossa. Então, todo o aparato que estava preparado para fazer uma ação de prisão desse grupo criminoso que estava se deslocando para uma outra localidade. Foi realizada de forma emergencial, comunicado a todo órgão do Ministério Público, a todas as instituições envolvidas com aquela ação”, diz o tenente-coronel Uirá do Nascimento Ferreira, comandante do Bope.

Barricadas colocadas por bandidos fecharam várias ruas da comunidade. Muitos moradores não conseguiram sair de casa. Trinta e três escolas municipais não abriram na Vila Cruzeiro e no Complexo Alemão, que fica perto.

Durante a operação, uma mulher morreu dentro de casa na Chatuba, uma comunidade vizinha. Gabrielle da Cunha tinha 41 anos.

“A Gabriele estava no interior de sua casa em uma comunidade que não era alvo da operação. Não havia tropa ali na região onde ela morava. Provavelmente foi atingida por disparo de tiro de longo alcance, uma realidade do Rio de Janeiro, esse uso indiscriminado de fuzis por parte dos marginais”, diz o porta-voz da PM tenente-coronel Ivan Bláz.

A polícia disse que os confrontos mais violentos com os traficantes ocorreram dentro da mata, na parte alta da Vila Cruzeiro.

Nesse mesmo lugar, em 2010, o Globocop flagrou a fuga de dezenas de criminosos durante a ocupação do Complexo da Penha e do Alemão pelas forças de segurança.

“Foi uma quadrilha com mais de 60 homens armados de fuzis, confronto em larga escala”, disse o porta-voz da PM.

No confronto, o helicóptero blindado da PM foi atingido por três tiros. A polícia apreendeu 13 fuzis, dez pistolas, granadas e drogas.

Mortos e feridos foram levados para o Hospital Getúlio Vargas, que fica próximo ao local da operação. A movimentação no hospital foi intensa. Entre os feridos está um policial civil, atingido por estilhaços de bala no nariz durante uma perícia.

O secretário de Polícia Militar do estado afirmou que entre as vítimas estão criminosos que vieram de outros estados, como Pará e do Amazonas

“Uma fação muito atuante, e que em determinado momento passou a abrigar elementos de outros estados, a esconder elementos de outros estados e a treinar elementos de outros estados. Então, tudo isso está sendo mapeado, monitorado”, disse o secretário de estado da Polícia Militar/RJ, coronel Luiz Henrique Pires.

A operação na Vila Cruzeiro deixou 22 mortos e 7 feridos. Sendo que 6 deles estão presos. O Ministério Público, a Defensoria Pública e organizações de direitos humanos criticaram a ação, que está entre as mais violentas na história do Rio.

Em 2021, 28 pessoas morreram, entre elas um policial civil, durante uma operação no Jacarezinho, também na zona norte da cidade.

A ouvidoria e o Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos da Defensoria Pública do Rio lembraram que moradores pedem socorro enquanto relatam desespero, angústia e muito medo.

Representantes da instituição foram até a Vila Cruzeiro para orientar moradores, organizar as informações recebidas, cobrar o fim da violência e a investigação de todos os casos.

O presidente da ONG Rio de Paz Antônio Carlos Costa perguntou: o que mudou após as 28 mortes no Jacarezinho, no ano passado. A operação de hoje está inserida em qual projeto de segurança pública?

A ONG Human Rights Watch afirmou que o rio precisa urgentemente de uma nova política de segurança pública que não seja a bala.

E o Ministério Público Estadual e o Federal abriram investigações para apurar as mortes na ação policial.

“A primeira coisa que há de errado primeiramente é o número elevado de mortes. Por outro lado, a gente quer saber precisamente em que circunstância se deu a participação da polícia rodoviária federal nessa operação”, avalia Eduardo Benones, procurador chefe do controle da atividade policial.

A secretaria de estado da Polícia Militar reconheceu que não é possível considerar exitosa a operação com mortes, principalmente envolvendo uma pessoa inocente. E que a corregedoria da PM acompanhará as investigações.

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