O que destruiu cidade no Paraná pode ser um dos mais fortes já registrados

“Essas áreas de baixa pressão aumentam a turbulência atmosférica, e quando o ar fica mais turbulento, você tende a ter intensificação de movimentos convectivos.”

Somados, os fatores climáticos e geográficos tornam as regiões Sul e Sudeste mais propensas aos tornados, como demonstra o histórico destacado por Daniel em sua tese:

Daniel detalha que combinação entre o aquecimento do ar, a condensação da umidade e os ventos em altitude pode gerar tanto tornados quanto outros fenômenos destrutivos, como microexplosões atmosféricas, fenômeno que ocorreu no interior de São Paulo em 2016.

Tornado no Paraná superou 250 km/h

Com base nas imagens e nos danos observados na cidade paranaense, o geólogo avalia que o tornado foi excepcionalmente forte. Na tese de doutorado publicada em 2012, ele também defendia a criação de uma Escala Brasileira de Ventos (Ebrav), com níveis de 0 a 7, voltada às especificidades do país.

O primeiro estágio equivale a ventos de até 50 km/h, intensidade que não apresenta potencial de danos. O último classifica ventos acima de 260 km/h, capazes de provocar destruição generalizada de instalações urbanas. Se fosse adotada, a Ebrav colocaria o desastre do Paraná no nível 6, devido ao potencial de:

  • desabamento de casas de alvenaria;
  • levantamento de automóveis com a força do vento;
  • quebra de postes de cimento e derrubada de torres de alta tensão;
  • quebra de vidros de janelas em edifícios altos pela força do vento.

Cultura de prevenção ainda é desafio

Embora não sejam tão recorrentes como na América do Norte, os tornados no Brasil têm gravidade importante, segundo o pesquisador. No entanto, os impactos tendem a ser notados de forma diferente devido a fatores como a densidade populacional das regiões afetadas, os padrões construtivos de cada país e a cultura de prevenção.

“Nos Estados Unidos, as casas são predominantemente de madeira ou estruturas leves, o que as torna mais frágeis ao vento, mas mais fáceis de reconstruir.” Já no Brasil, segundo ele, “as habitações são construídas em material mais pesado, como concreto e tijolo. Elas resistem mais, mas quando desabam, o impacto é muito maior.”

“Áreas mais pobres, mais periféricas, tendem a ter um grau de vulnerabilidade muito maior. No fim, a gravidade e a fatalidade não é nem tão vinculada à intensidade do evento, mas sim ao local onde ele foi registrado.”

Para o especialista, o Brasil ainda está distante da cultura de prevenção presente em países como os Estados Unidos. “Lá, é comum ligar a TV e ver as condições do tempo logo pela manhã. As pessoas crescem aprendendo a acompanhar e confiar na meteorologia.”

Ele aponta dois motivos principais para essa diferença: educação e infraestrutura. “Eles têm uma rede de radares muito mais adensada que a brasileira, com cobertura praticamente total e dados acessíveis ao público. No Brasil, a burocracia para acessar informações meteorológicas muitas vezes dificulta a criação dessa cultura.”

Deixe um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *