Homem com câncer terminal organiza festa para o próprio velório (em vida)

O corpo avisou antes

“Eu descobri que não tinha cura. Que teria de viver com aquilo; provavelmente, morrer daquilo.”

“Naquele momento, decidi: não vou faltar no meu.”

O after

Entre um detalhe e outro da festa, Tiago cuida também do que vem depois.

Já separou as senhas: banco, redes sociais, tudo anotado e entregue para as pessoas certas. Definiu a destinação dos bens —coisas pequenas mesmo, um drone, um notebook, cada um já tem dono. O velório de fato, o ritual que vem depois, ele deixou para outra pessoa resolver. “Nem mexo com isso.”

A família foi avisada pessoalmente, com antecedência, para não receber o choque pela tela. O núcleo mais próximo ainda processa. Não usam a palavra velório —dizem “a festa”. Dificilmente usam a palavra câncer —dizem “essa doença”. Todos confirmaram presença.

A mãe é quem cuida dele. Tiago morava fora, voltou para Campo Grande para ficar perto dos pais —o pai estava doente, a ideia era cuidar dos dois. Construiu uma casa no terreno em que moravam.

No final das contas, é a mãe quem cuida dele. Com ela, conversa sobre a doença, sobre os cuidados paliativos, sobre o que come e o que não come. Sobre a morte, não. “Se eu tento puxar o assunto, ela sai pela tangente. Eu nem forço.”

Hoje, Tiago faz quimioterapia paliativa e imunoterapia —o objetivo não é curar, mas tentar retardar o avanço do tumor. Tem acompanhamento neurológico por causa do pé e gastroenterológico para mitigar o estrago de uma gastrite permanente que dificulta a alimentação. Toma remédios para conseguir comer.

A dieta mudou numa conversa entre amigos. Uma nutricionista que estava no grupo foi direta: naquele momento, não havia dieta a seguir —era preciso comer o que fosse possível, do jeito que desse.

Foi uma virada. Ele voltou a se alimentar; pouco, a cada três horas, com dificuldade, mas voltou. Às vezes iogurte, às vezes fruta. Recuperou alguma força.

No restante do tempo, aprende a tocar guitarra. Nunca havia tocado nada na vida, mas comprou o instrumento e entrou numa aula. Quer fazer pelo menos um show antes de ir —subir num palco uma vez. Joga sinuca com amigos, que é esporte que o corpo suporta.

Na semana anterior a esta conversa, havia descido 70 metros de rapel até o Abismo Anhumas, em Bonito: um buraco no chão da mata que abre para uma caverna gigantesca com lago de água cristalina, um dos mergulhos mais procurados do mundo. No dia seguinte, saltou de paraquedas.

“Lá em cima não tem câncer. Só tem eu e aquele mundão.”

A viagem de volta de Bonito foi extenuante. Chegou debilitado. Mas não importa. Enquanto puder ir, diz, vai.

Tiago não tem medo da morte. O medo é do processo: sentir dor, ficar acamado, terminar em hospital. Cita Gilberto Gil —’não tenho medo da morte, mas de morrer, sim’— como se a distinção prescindisse de qualquer comentário adicional.

Tem um sonho que ainda não realizou. Quer ir à praia e aprender a surfar. Quer uma foto pegando onda.

É essa foto, ele diz, que vai estar exposta no velório real —o velório que vem depois.

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