Golpe do ‘falso gerente’ de banco mira contas empresariais e causa prejuízos de mais de R$ 80 mil em SP

“Roubaram o dinheiro do livro que passei anos escrevendo”, lamentou a escritora. “Quero meu dinheiro e quero alertar todo mundo. Não tem que ter vergonha, temos que ir atrás do nosso direito.”

Ao procurar a gerente oficial da conta, indicada no aplicativo do banco, a escritora foi orientada a encerrar a conta por segurança. “Ela disse que possivelmente eles estavam no controle do aplicativo”, afirmou.

Ela destaca que não costuma movimentar valores altos por PIX, o que, segundo ela, poderia ter levantado alertas de segurança por parte do banco.

Em nota, o Bradesco afirmou que não comenta casos que envolvem clientes em “razão do sigilo bancário”. Disse ainda que, de forma geral, os golpes envolvendo falso funcionário e falsa central de atendimento têm aumentado.

Prejuízo de R$ 18 mil

Outro caso semelhante ocorreu em Guarulhos, na Grande São Paulo, com a empresária Ana Maria Ferreira Soares, de 62 anos, que teve a conta jurídica do Bradesco usada por criminosos após contato com um falso funcionário.

De acordo com a família, o golpista alegou a necessidade de uma atualização cadastral e enviou um link com aparência idêntica à página do banco. Após uma primeira abordagem sem movimentações, ele voltou semanas depois e pediu que a vítima digitasse códigos e escaneasse QR Codes.

Na sequência, foram feitos resgates de valores e contratação de empréstimo. O aplicativo do banco apresentava instabilidade alguns dias antes do golpe, segundo a família.

O prejuízo foi de cerca de R$ 18 mil — sendo parte referente a um empréstimo feito sem autorização. O caso foi registrado no 2º DP de Guarulhos como estelionato em 23 de janeiro deste ano.

Segundo a família, o banco negou o ressarcimento sob a justificativa de que a cliente forneceu as informações aos criminosos. A vítima afirmou que está entrando na Justiça com auxílio de um advogado para tentar recuperar os valores.

Fraude

Um terceiro caso obtido pelo g1 é o da psicóloga Deborah Carceles, de 67 anos. Ela afirma ter tido prejuízo superior a R$ 50 mil após um golpe no final de março.

Segundo ela, o golpista se apresentou como gerente da conta e, dias depois, passou a insistir na realização de uma atualização cadastral, enviando inclusive uma suposta comunicação da Febraban (Federação Brasileira de Bancos).

Desconfiada, a vítima tentou resolver a situação pelos canais oficiais, mas afirmou que enfrentou falhas no aplicativo e dificuldade de contato com a agência.

“Eu tentei fazer pelo aplicativo, mas não concluía. Também liguei várias vezes e ninguém atendia”, disse.

Na sequência, acabou seguindo as orientações do suposto funcionário. Segundo o relato, foram feitos empréstimos do tipo capital de giro e três transferências via PIX, mesmo sem histórico desse tipo de operação na conta.

🔎 Capital de giro é um tipo de empréstimo oferecido pelos bancos para empresas usarem no dia a dia, como em pagamento a fornecedores, funcionários e contas básicas do negócio. Na prática, o banco libera um valor para a empresa e cobra juros pelo uso desse dinheiro, com pagamento parcelado.

“Eu nunca usei capital de giro em mais de dez anos de conta. De repente fizeram um empréstimo e três PIX que somam mais de R$ 50 mil”, afirmou.

O Bradesco afirmou à psicóloga que “a transação contestata foi autorizada mediante o uso de credenciais válidas”, que tentou recuperar o dinheiro, mas não teve êxito, e que vai monitorar a conta favorecida pelo prazo de 90 dias.

A vítima registrou um boletim de ocorrência e afirmou que já ingressou com ação judicial contra o banco.

Como se proteger

O advogado Marcelo Frullani, especializado em Direito e Tecnologia da Informação e Direito Autoral, explica que os golpes têm se tornado cada vez mais sofisticados e convincentes.

“Hoje em dia, os criminosos criam fraudes cada vez mais elaboradas e conseguem convencer as pessoas de que são funcionários do banco. Já vi casos em que foi utilizado inclusive um telefone que realmente pertencia à instituição financeira”, afirma.

De acordo com ele, a principal medida de prevenção é desconfiar de contatos recebidos por telefone ou aplicativos de mensagens.

“A orientação é jamais confiar em mensagens de WhatsApp ou ligações de pessoas que se dizem gerentes do banco. Sempre que houver qualquer solicitação, o cliente deve entrar em contato com os canais oficiais da instituição antes de tomar qualquer providência”, explica.

O advogado também alerta para o risco de links e páginas falsas.

“Muitas vezes, os criminosos criam sites que simulam os ambientes oficiais dos bancos. Por isso, é fundamental desconfiar de links enviados por terceiros e nunca escanear QR Codes sem confirmação da autenticidade.”

O que fazer se cair em um golpe

Frullani orienta que a vítima registre imediatamente um boletim de ocorrência e comunique o banco para tentar reduzir os prejuízos. Segundo ele, as instituições financeiras podem ser responsabilizadas.

“A responsabilidade dos bancos é objetiva. Isso significa que independe de culpa. Para se eximir, a instituição precisa provar que houve culpa exclusiva da vítima.”

Registrar o boletim de ocorrência é o primeiro passo, mas não garante, por si só, a abertura imediata de um inquérito policial. Em casos de golpe, a polícia pode instaurar uma investigação para tentar identificar os responsáveis pelo crime — o que depende de análise do caso e de elementos como rastreamento de contas e transferências.

O especialista ressalta que, em caso de negativa de ressarcimento por parte do banco, o cliente pode recorrer à Justiça.

“Muitas vezes é necessário ingressar com ação judicial para obter a devolução dos valores. Também é possível solicitar judicialmente os registros de acesso, como os endereços de IP, conforme previsto no Marco Civil da Internet.”

De acordo com o advogado, essas informações podem comprovar acessos indevidos às contas. “Esses dados permitem identificar se houve invasão por terceiros, o que pode caracterizar falha de segurança do banco.”

Ele acrescenta que transações fora do padrão do cliente também podem indicar vulnerabilidades. “Quando uma operação foge do perfil do consumidor, o banco deveria utilizar mecanismos tecnológicos para identificar e bloquear a fraude.”

O que diz o Bradesco

Em nota, o Bradesco afirmou que não comenta casos que envolvam clientes em razão do sigilo bancário e que, de forma geral, os golpes envolvendo falso funcionário e falsa central de atendimento têm crescido.

“O Banco mantém comunicação ativa com seus clientes, por meio de campanhas e alertas nos canais digitais com orientações de prevenção. O Bradesco reforça que não realiza ligações solicitando senhas, chaves de segurança, instalação de aplicativos, acesso remoto ao aparelho ou autorização de transações, e disponibiliza orientações de segurança em seus canais oficiais.”

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