Como profissionais do Serviço de Verificação de Óbito lidam com a morte no dia a dia

Parar o pranto

Em um ambiente em que a dor é constante, Carmen aprendeu a encontrar equilíbrio entre empatia e força. “A gente muda, a gente fica mais forte pra atender a família. Porque se a gente ficar muito sentimental…”, reflete ela, que diz chorar assistindo novelas. 

Há casos, porém, que ainda a comovem. “Tem gente que nem sabe que existe assistência. Diz logo: ‘Onde é que eu vou sepultar o meu parente? No meu quintal?’ Aí eu explico: não precisa ser no seu quintal, nem pode. A Prefeitura concede um auxílio. Muitos querem deixar o corpo aqui porque não têm onde velar”.

O auxílio-funeral municipal fornece o serviço de sepultamento de pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica, que inclui traslado do corpo, urna funerária e ornamentação, dentre outros serviços funerários. 

O benefício eventual é concedido em hospitais, Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e no próprio SVO. Nos hospitais e UPAs, o familiar pode procurar o setor de serviço social, que realiza o contato com a funerária credenciada que realiza o serviço. 

Para ter acesso, é preciso apresentar documentos como identidade e comprovante de endereço da pessoa que faleceu, identidade do solicitante, declaração ou atestado de óbito e encaminhamento do auxílio-funeral.

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profissionais atuam no SVO de Fortaleza, entre diversas equipes e especialidades.

Entender os diversos fins

O trabalho no SVO vai além da dor: também é ciência e aprendizado. José Rubens Costa Lima, doutor em Biotecnologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e epidemiologista do Núcleo de Estudos e Pesquisas (Nuep/SVO), vê nas mortes uma oportunidade de compreender melhor a vida.

“De fato, o interesse é a gente tentar reconhecer como foi a vida e tentar entender o processo da morte”, explica. “Fazer as associações para tentar fazer a melhor descrição possível e historiar isso: quando começou, quando evoluiu, como foi esta morte – quão confortável, quão precoce, quão inconveniente”.

Ele lembra que, ao longo da história, foi o estudo das causas da morte que transformou a medicina empírica em ciência formal. “A medicina se transforma muito quando surge a patologia. O estudo da morte com profundidade foi o que transformou a medicina em ciência verdadeira”, afirma. 

“A gente vê por dentro, né? Depois de tudo que aconteceu, a gente vai poder correlacionar. Então, isso dá um entendimento muito maior da vida”, entende.

Aprender com a morte

Apesar da rotina entre as mesas frias de necrópsia e os relatórios técnicos, o médico patologista Sami Gadelha, diretor técnico do SVO, também encontra espaço para ter nós na garganta. Embora analise diversos corpos no dia a dia, ainda há casos que o tocam de maneira particular.

“Pela minha história de vida, fico particularmente sensível quando lido com pessoas que têm algum tipo de neurodivergência ou transtorno cognitivo, porque eu sou autista e tenho um filho autista”, compartilha. “Essas autópsias sempre me deixam um pouco mexido porque você sempre pensa que poderia ter sido você ou seu filho”.

Um caso, em especial, o marcou: o de um jovem autista não verbal que morreu por apendicite. “Ele não conseguia explicar pro pai dele o que estava sentindo. Quando muito, ele falava ‘barriga dodói’, mas o pai não conseguia entender. São pessoas que faleceram simplesmente porque não conseguiram comunicar direito o que estavam sentindo”, relata.

As estatísticas do trabalho também o fizeram refletir e mudar perspectivas sobre a própria vida. “Como eu tenho 39 anos, tô vendo gente mais nova que eu morrendo de infarto, aí voltei pra academia”, confessa, com bom humor.

Entre a observação científica e o acolhimento humano, os profissionais do SVO lidam diariamente com a finitude e, ao mesmo tempo, com o desejo da continuidade. Mas o que importa mesmo para eles, segundo o motorista Jair Cleudon, é tratar o outro

“Como se fosse comigo, né? Como se fosse um parente meu”.

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