Bets, vape e chemsex: como ‘novos’ vícios têm avançado e se tornado problemas de saúde pública

Jogos de azar não são novos. Nem nasceram digitais. Vide o “jogo do bicho”, criado ainda no século XIX. O problema agora é outro: o vício está na palma da mão. Com a legalização das bets e jogos online, o chamado “jogo patológico” volta à tona – e aos consultórios médicos.

O psiquiatra clínico e forense Thiago Henrique Rosa definiu, em palestra no Brain, que o ato de apostar nesses jogos de azar “coloca algo de valor em risco com a expectativa de ganhar algo de maior valor” – gerando um círculo vicioso de perdas.

A dependência, então, passa a se estabelecer e ser motivada por estados e sentimentos negativos, como angústia.

“A pessoa aposta ao se sentir angustiada, com emoções negativas, até na tentativa de regulá-las. Outra coisa é perseguir as perdas: ela perde e começa a tentar recuperar por meio do próprio jogo, mas sabemos que isso não acontece”, lamenta.

Se o “jogo do bicho”, por exemplo, atrai em geral pessoas mais velhas, as bets e jogos de azar online atingem camadas ainda mais preocupantes. A maioria das pessoas que desencadeiam dependência é de homens – “mas há mais adolescentes e mulheres jogando”, como observa Thiago.

“Houve uma grande mudança recente nesse comportamento. Os jogos têm se transformado pelas inovações tecnológicas. Tem várias estratégias de gamificação, de aplicativos, atraindo principalmente adolescentes”, comenta o psiquiatra.

“Adolescentes têm vulnerabilidade importante, com mais chance de desenvolver a patologia, as métricas de jogo de risco. Usuários de bets tendem a desenvolver mais isso também em comparação com outras formas de gambling (jogos de azar)”, analisou Thiago, durante apresentação.

25,9%

da população brasileira de 14 anos ou mais já apostou pelo menos uma vez, e bets já são o segundo tipo de “gambling” mais frequente, segundo pesquisa divulgada pelo psiquiatra.

O especialista observa ainda que, além da legalização das apostas esportivas, em 2018, “a cultura dos influencers tem um papel muito relevante nisso”. “Quem gosta de esporte e vê comentaristas esportivos fazendo publicidade de bets, num claro conflito de interesses, confia e começa a apostar”, alerta.

A “chegada” à dependência pode ter múltiplas causas, explica o médico – e também consequências. “Os jogadores de risco têm quatro vezes mais risco de suicídio. É um fenômeno intimamente conectado”, lamenta Thiago, atribuindo como alguns dos fatores “o endividamento e a vergonha, que dificultam a procura por ajuda”.

No Ceará, existe uma célula do grupo Jogadores Anônimos (JA), que reúne e acolhe quem precisa de ajuda para deixar o vício. Há uma linha de ajuda online, aberta, por meio da qual os interessados podem se informar sobre os encontros, no WhatsApp: (85) 98929-5529.

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