Médium é investigado por desviar milhões de reais dos sogros por meio de ‘conselhos de espíritos’

Acusação de manipulação

Entre as transações apontadas como “suspeitas” estão:

  1. Doação de R$ 1,4 milhão, por parte da sogra, para terceiros;
  2. Transferência de R$ 70 mil para a conta da esposa de F.G., filha mais velha do casal;
  3. Transferência de R$ 66 mil para a conta do centro espírita de F.G.

Vínculo familiar

O vínculo de F.G com a família remonta a 1998, quando o idoso que viria a ser seu sogro foi pela primeira vez ao centro espiritual que o homem comandava. Nos meses seguintes, F.G. passou a frequentar reuniões familiares e acabou estabelecendo um namoro com a filha mais velha do idoso e recém-divorciada.

Os dois se casaram em 2007, com comunhão total de bens – regime que, segundo testemunhas, teria sido estabelecido sem o conhecimento da família. Nos depoimentos à Polícia Civil, as outras filhas do idoso dizem que os problemas começaram já por volta de 1999 – ou seja, cerca de um ano após F.G. começar a frequentar a família.

Uma das filhas teria sido acusada pelos espíritos de roubar documentos importantes da empresa familiar. Os mesmos espíritos teriam dito que o esposo dela planejava matar o fundador da empresa. A mulher foi dispensada da empresa, e o marido dela perdeu contato com os sogros desde então.

As filhas do casal afirmam que perderam acesso às contas dos pais desde 2021, enquanto F.G. teria passado a controlar as finanças dos idosos e possuía acesso irrestrito ao apartamento da família e aos aplicativos bancários.

Mudança de comportamento da mãe

De acordo com as filhas do casal, o pai passou a apresentar sintomas de Alzheimer em 2018. O diagnóstico foi confirmado nos anos seguintes, conforme o médico do idoso afirmou à Polícia. A esposa, porém, teria mantido o laudo para si e passou a administrar a empresa por conta própria, tendo F.G. com assistente financeiro.

As filhas dizem que, durante a pandemia de Covid-19, F.G. teria ficado mais próximo da mãe delas, à medida que os sintomas de Alzheimer foram se intensificando no sogro. Atualmente, segundo funcionários da casa, o homem de 90 anos não consegue se comunicar nem realizar atividades diárias por conta própria.

As maiores movimentações financeiras ocorreram após F.G. estabelecer a relação de proximidade com a sogra. Entre elas, está a doação de R$ 1,4 milhão a membros de uma mesma família. No depoimento à Polícia, a idosa disse que fez a doação conscientemente após Fernando contar que as pessoas passavam dificuldades financeiras e enfrentavam doenças.

De acordo com as filhas, a mãe passou a apresentar comportamento hostil em relação a elas nos últimos anos, chegando a acusar uma delas de tentar matá-la envenenada. A idosa também acusou uma das filhas de desvio de dinheiro e chegou a registrar um Boletim de Ocorrência contra ela, o que gerou um processo ainda em tramitação.

Em março de 2025, as filhas conseguiram uma medida protetiva que impedia F.G. de se aproximar dos seus pais ou manter contato com eles. Conforme a investigação policial, porém, o homem mantinha contato com eles por meio dos celulares das funcionárias domésticas do casal.

Envolvimento espiritual

F. G. é o guru espiritual de pelo menos dois centros espíritas, na Grande Fortaleza, voltado para o ritual do Santo Daime – nome pelo qual é conhecido o chá alucinógeno ayahuasca. Os dois templos foram construídos em terrenos doados pelos sogros.

Os idosos frequentaram os espaços ao longo de mais de duas décadas. Por cerca de 20 anos, o casal fez uso da ayahuasca. Conforme testemunhas, F.G. alega ter incorporado os espíritos de diversas personalidades famosas, como:

O que diz o acusado

Em depoimento à Polícia, F. G. disse que o sogro recebia mensagens de espíritos incorporados por ele e por outros médiuns do centro, “todas de cunho positivo, incentivando à caridade“. Ele negou que as mensagens espirituais tenham orientado os idosos a fazerem doações a ele ou familiares.

O investigado também disse que passou a ajudar a sogra, financeiramente, após pedido dela. Ele confirmou ter acesso aos aplicativos bancários da idosa, mas destacou que uma das filhas, que continua a trabalhar na empresa, também tem acesso às contas dela e do esposo.

F. G. disse que sua fonte de renda atual vem de uma doação que o sogro fez, há cerca de 7 anos, para todas as filhas e seus esposas, a título de adiantamento da herança.

A defesa de F. G. não foi localizada para comentar a denúncia da família da esposa dele e o indiciamento da Polícia Civil.

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