Francisco Márcio Freire, de 43 anos, um dos presos pelo assassinato da universitária Natany Alves, de 20 anos, sequestrada na saída de uma igreja evangélica no interior do Ceará, matou a jovem após tentar estuprá-la, conforme o inquérito da Polícia Civil, que foi concluído nesta terça-feira (25).
Além dele, Francisco Teodósio Ramos, ambos de 43 anos, e Jardson do Nascimento Silva, 23 anos, foram presos pelo crime.
A dinâmica do crime ocorreu em quatro cidades cearenses. Os três homens sequestraram a vítima em Quixeramobim, mataram em Banabuiú, seguiram para Morada Nova e foram presos ao tentar se esconder em Quixadá.
Laudos da Perícia Forense (Pefoce) apontaram que Natany foi submetida à extrema violência antes de ser brutalmente assassinada, sofrendo traumatismo craniano severo em decorrência do esmagamento da cabeça com múltiplos golpes de pedra. O documento também indica que ela tentou se defender dos ataques.
Márcio, Teodósio e Jardson foram autuados por latrocínio, ocultação de cadáver e organização criminosa. Márcio vai responder também por estupro. A defesa dos três está sendo realizada pela Defensoria Pública, mas o órgão não irá se pronunciar.
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Inicialmente, os três suspeitos confessaram à polícia que haviam planejado roubar um carro para quitar uma dívida de Márcio e escolheram a jovem aleatoriamente. Porém, entraram em contradição sobre quem teria desferido as pedradas que mataram a Natany.
Porém, foi solicitado e autorizado pela Justiça um novo inquérito dos três investigados, realizada no dia 19 deste mês.
No novo depoimento, Francisco Márcio manteve a versão de que partiu dele a ideia de roubar um veículo para quitar uma dívida. O plano inicial era tomar de assalto um taxista, mas ao passarem em frente a uma pousada viram a moça entrando sozinha no carro e decidiu abordá-la, sendo acompanhado pelos comparsas.
Durante o percurso, ele prometeu a universitária que não faria nenhum mal a ela. Contudo, após levar a vítima a um local ermo na localidade de Laranjeiras, em Banabuiú, decidiu assassiná-la, para não ser descoberto.
“O declarante levou a vítima sozinho para dentro do mato e disse que a mataria. A vítima começou a chamá-lo de covarde e sem palavra, pegando uma pedra e atingindo ele na cabeça. Nesse momento, ele agarrou a vítima pelo pescoço com a duas mãos e a jogou no chão com força, então quando ela caiu deitada o declarante subiu em cima da vítima e começou a atingir sua cabeça”, diz um trecho do depoimento do suspeito.
O ataque foi presenciado por Jardson e Francisco Teodósio, que chegaram momentos depois. Este último, inclusive, teria dados os últimos golpes na jovem.
Francisco Márcio negou que tivesse estuprado a universitária, porém os depoimentos dos comparsas relatam deixam em dúvida a conduta do suspeito. Quando o corpo foi encontrado, a universitária estava com o vestido levantado acima da cintura.
Francisco possui antecedentes criminais por roubo e é investigado por abusar sexualmente de uma de suas filhas.
Intenção de estuprar a jovem
Francisco Teodosio relatou durante o novo depoimento que estava em situação de rua quando conheceu Márcio há alguns meses. No primero encontro, Márcio o convidou para trabalhar pedindo doações, usando a foto de uma criança, e os dois dividiriam o valor arrecadado. Jarson se juntou a eles no mesmo contexto.
Ainda de acordo com Teodosio, após sequestrarem Natany, Márcio levou a vítima para um local ermo, desceu do carro com ela e falou: “Vou fazer o que vocês não ter coragem de fazer”.
Nesse momento, ele olhou para Jardson e comentaram: “Será que ele vai fazer o que eu estou pensando?”.
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O questionamento se referia ao fato de Márcio tentar estuprar a jovem, pois durante o trajeto até o local Márcio ficou falando frases de duplo sentido, acariciou os braços da vítima e perguntou se ela tinha alguém.
Além disso, de acordo com Teodósio, momentos após Márcio sair, ele ouviu gritos de socorro de Natany. O que fez ele e Jardson irem até o local e avistarem a jovem desacorda, com o vestido levantado acima da cintura e Márcio de joelhos em cima dela, pedindo aos comparsas para matá-la.
Jardson reforçou a versão de Teodósio e citou que chegou a pedir a Márcio durante o caminho que soltasse a garota, porém o mesmo respondeu: “Tem nem perigo eu soltar ela”.
Conforme as investigações da polícia, Márcio iniciou os ataques, Jardon entregou uma pedra a Teodósio e este último concluiu a execução.
“Através dos interrogatórios dos investigados foi possível constatar que Francisco Márcio vinha adotando um comportamento diferente durante o percurso e que inclusive chegou a mencionar a seguinte frase: ‘Às vezes o diabo coloca pratos deliciosos na nossa frente’. Essa frase de duplo sentido reforça a ideia de que Márcio vinha alimentando a intenção de abusar sexualmente da vítima. Some-se a isso o fato do autor já ser investigado por outro crime sexual, onde é suspeito de abusar sexualmente de sua filha”, diz um trecho do relatório da investigação.
Ainda segundo a investigação, Natany tentou se defender, o que foi comprovado pelas lesões encontradas no corpo dela.
“Há fortes evidências de que o suspeito Márcio tentou consumar o ato sexual e encontrou resistência da vítima. Os sinais de defesa, somados aos relatos dos demais autores do crime e aos gritos de socorro emitidos pela vítima, indicam que Natany foi alvo de tentativa de violência sexual, sendo esse o momento em que esboçou maior resistência”.
Após matar Natany, os três homens fugiram no carro da vítima em direção à cidade de Morada Nova, onde pararam em um posto de combustíveis.
No estabelecimento comercial, os criminosos lavaram as mãos, sujas de sangue e tomaram café.
“Ali, em vez de demonstrar nervosismo, Márcio exibiu extrema frieza e foi até a loja de conveniência. As câmeras de segurança registraram a cena: Márcio tomando café calmamente”, apontou a investigação.
Em seguida, foram à cidade de Quixadá, abandonando o carro de Natany nas proximidades do Terminal Rodoviário. A intenção era deixar o carro “esfriar”, para depois venderem.
Durante a fuga, Márcio chegou a tentar convencer Teodósio a assumir a autoria da morte da universitária.
“A vítima foi subjugada fisicamente e abusada, sendo mantida sob total controle do agressor, em um contexto de dominação e violência extrema. O delito se consumou com a prática de ato libidinoso ofensivo à dignidade sexual, independentemente de qualquer violação mais extrema como a conjunção carnal, uma vez que o crime de estupro abrange tanto aquela, quanto outros atos de natureza libidinosa que atentem contra a dignidade sexual da vítima”, aponta a investigação.
Dívida que motivou roubo de carro
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Durante as investigações conduzidas pelo delegado William Lopes, da Delegacia de Quixeramobim, a polícia descobriu que a dívida citada por Márcio, que teria motivado a ideia do roubo de um veículo, era de R$ 5 mil.
O suspeito devia a quantia por conta do uso de entorpecentes, bebidas alcoólicas e serviços sexuais em prostíbulos de Quixadá. Por isso, ele empenhou o carro de sua propriedade com um agiota e pretendia levantar o dinheiro para recuperar o veículo. O carro dele foi apreendido.
A investigação também apontou que Márcio viajava por municípios do interior do Estado se apresentando como membro de um projeto social e usava fotos do filho de 9 anos, que possui paralisia, para pedir doações.
O valor arrecadado era dividido entre ele e os comparsas e usado no consumo de drogas, bebidas alcoólicas e gastos com prostitutas.
Durante a audiência de custódia, os homens tiveram a prisão preventiva decretada pela Justiça, por latrocínio. Na decisão, o juiz de Direito afirmou que os autuados demonstraram “completo desprezo, mesquinhez e desapego pela vida humana”.
“[Há] uma acentuada e profunda reprovabilidade na conduta ético-jurídica dos autuados ao levarem a vítima ao óbito por meio de pedradas na cabeça”, diz um trecho da decisão.
Natany era filha única, cursava licenciatura em Química no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), no campus de Quixadá e trabalhava em uma empresa da região. A morte da jovem causou comoção em Quixeramobim e nos municípios vizinhos.
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